Quem deve se ligar na ciência?

Há uma distância cada vez maior entre a ciência que as pessoas consomem e a ciência que conhecem

A pergunta do título tem uma resposta óbvia. Mas esse não é o caso da maioria das pessoas. Basta entrar em uma livraria e tentar encontrar a parte de ciência. Ou checar as listas dos livros mais vendidos da Folha ou de outras editoras. Claro, volta e meia um livro sobre ciência entra na lista e fica por lá durante um tempo. Mas, em geral, são títulos que combinam ciência e religião ou ciência e política. A mesma coisa acontece no caso dos documentários sobre ciência.
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Quando mito e ciência se encontram

Muito do que é narrado nas tradições religiosas, como a estrela de Belém, é inspirado por eventos reais

No seu belíssimo “A Adoração dos Magos”, o pintor renascentista italiano Giotto di Bondone reproduz a icônica visita dos reis magos à manjedoura onde está o bebê Jesus. Acima, vemos a estrela de Belém, representada como um cometa dourado. Giotto observou o cometa de Halley em 1301, o que influenciou sua obra de 1304.

O que ele não sabia é que o cometa havia aparecido também em 12 a.C.. A conexão que Giotto fez entre o cometa e a famosa estrela foi criticada por muitos, incluindo São Tomás de Aquino. Cometas não brilham durante o dia, ele argumentou; fora isso, cometas são um mau agouro: “No sétimo dia todas as estrelas, tanto planetas quanto estrelas fixas, cairão dos céus com caudas em fogo, como cometas”, escreveu.

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O mestre do método científico

O protagonista da série “House” é defensor da dedução lógica para chegar a uma conclusão racional

Imagino que a maioria de vocês conheça a megassérie da Fox, “House”, agora em seu oitavo ano. Para quem não conhece, o enredo é mais ou menos assim: em um hospital perto de Princeton, nos EUA, trabalha o genial e genioso Dr. Gregory House -representado magistralmente por Hugh Laurie-, líder de um time de médicos especializados em diagnósticos complicados, aqueles que nenhum outro médico consegue decifrar.

À sua incrível intuição, o doutor House une sua irreverência e um conhecimento enciclopédico do corpo humano e de suas sutilezas. Excêntrico, não confia em ninguém, principalmente nos seus pacientes. Ele é um modelo do cientista dedicado à aplicação do método científico, defensor da dedução lógica para se chegar a uma conclusão racional. Na série, o rei é o método empírico.

Um paciente chega com uma série de sintomas misteriosos. House e seu time começam suas investigações, tentando antes as explicações mais óbvias. Em geral, estas falham e eles têm de pensar mais profundamente e, muitas vezes, de forma não convencional, sobre quais são as causas dos sintomas.

O primeiro passo é combinar toda a evidência disponível. Sua arma básica é o ceticismo. Fazem baterias de testes, coletando mais dados, tentando decifrar o quebra-cabeça. Uma causa plausível deve conectar todos os sintomas, dando sentido aos dados. De certa forma, cada diagnóstico é uma descoberta, uma ponte conectando informação de modo inesperado e inovador.

A ciência de ponta muitas vezes funciona da mesma forma: dados são obtidos, conexões são buscadas, hipóteses são construídas e testadas, comparando-as aos dados experimentais. Se funcionam, isto é, se explicam o que está ocorrendo, são aceitas preliminarmente até mais dados serem colhidos.

O processo de teste é contínuo, até que haja suporte suficiente para a hipótese. Ela é então aceita, até que novos dados possam vir a contradizê-la. A ciência avança por meio de seus fracassos. Novas ideias são necessárias quando as velhas não podem explicar as observações. Portanto, não há explicações finais, apenas explicações melhores.

Em “House”, e na medicina em geral, quando uma hipótese diagnóstica é considerada razoável, medicação é receitada para curar a doença. Se funciona como é previsto, ótimo: o paciente fica curado e o médico vai em frente, tentando curar outros. Se não funciona, o processo começa outra vez. Na série, novas ideias são discutidas em reuniões de grupo, onde sintomas e resultados de testes são comparados e discutidos, hipóteses são propostas e debatidas em conjunto. Essas discussões são essenciais para que novas ideias surjam. Na pesquisa, é muito comum que ideias nascidas como conjecturas ganhem corpo e expressão. Mesmo que o doutor House em geral tenha razão, o processo é válido, e imita o que ocorre em laboratórios e centros de pesquisa pelo mundo afora.

Claro, o doutor que cura os outros não sabe como se curar. Ou não quer. É difícil combinar objetividade e subjetividade, algo que imagino que muitos telespectadores saibam. Talvez devamos ouvir as sábias palavras de Sócrates, que há mais de 24 séculos já dizia que o essencial é conhecer a si mesmo.

Na mão dele

Fora uma jornada ruim e uma atuação inspirada de um adversário (ao mesmo tempo!), o título do ATP Finals será de Roger Federer. Depois da primeira rodada instável diante de Tsonga, ficou claro que o suíço chegou a Londres alguns níveis acima dos demais. Agora, sem Nadal, Djokovic e Murray no caminho, só um desastre do tamanho do Chrysler Buildingé capaz de evitar uma repetição da cena final do ano passado.

Não que Federer não fosse favorito – no último post sobre o tema, só questionei o tamanho desse favoritismo -, mas é claro que os momentos ruins dos outros três grandes ajudaram. Djokovic nunca se recuperou totalmente da lesão no ombro e parece sem a motivação de meses atrás; Nadal não fez nenhuma partida realmente boa e, depois de eliminado, disse que anda sem paixão pelo esporte; e Murray sentiu uma lesão e abandonou.

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O que é o espaço?

O espaço vazio não existe: há um vácuo de flutuações de energia capazes de criar partículas de matéria

De vez em quando é bom parar e refletir sobre coisas que pensamos ser triviais. Com frequência, descobrimos que o que tomamos como simples é bem mais complicado do que parece. Esse é o caso do conceito de espaço na física e na matemática.

Todo mundo tem uma noção intuitiva de espaço: é o que separa as coisas. Sem ele, tudo estaria embolado no mesmo lugar. Portanto, de acordo com essa definição, para entender o que é espaço implicitamente precisamos de outros objetos.

Obviamente, é difícil compreender o que é o espaço vazio, já que nesse caso não existem objetos distantes entre si. Mas conhecemos intuitivamente o seu significado: uma região sem qualquer matéria. Ou seja, para definirmos espaço, vazio ou não, precisamos de matéria.

Na matemática, espaço é uma construção abstrata, uma invenção para definir distâncias entre dois ou mais pontos ou entre dois ou mais objetos. É importante lembrar que espaço é uma invenção e que não tem, a princípio, uma existência física. Espaço não é uma coisa. Ou é?

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O bom, o mau e o feio

Será que a globalização, essa força que anda redefinindo o mundo, melhorará ou piorará as coisas? De um lado, vemos o mundo encolher com maior acesso à internet e com o aumento da eficiência e velocidade dos transportes e da intensidade do comércio internacional. De outro, nosso tribalismo desconfia de culturas diferentes e reage negativamente a valores externos.
Há muito tempo futuristas preveem que o desenvolvimento tecnológico deixará o mundo cada vez mais homogêneo. Considere, por exemplo, o livro do físico Mikio Kaku “A Física do Futuro”, continuação de outros semelhantes que ele escreveu.
Ele entrevistou 300 cientistas para criar uma visão utópica de um mundo definido pela ciência. Em 2100, diz, computadores inteligentes trabalharão com humanos, o acesso à internet será por lentes de contato e moveremos objetos com o pensamento; nanorrobôs destruirão células de câncer, a propulsão a laser redefinirá as viagens espaciais e colonizaremos Marte. Não haverá barreiras comerciais, e a mesma cultura e os mesmos alimentos serão divididos por todos. Essa homogeneização da sociedade acabará com as guerras.
Essas maravilhas tecnológicas são extrapolações do que já temos. Se alguém tivesse previsto que em 2010 teríamos laptops capazes de baixar remotamente gigabytes de informação ninguém acreditaria. O difícil é prever o inesperado.
Recentemente, o cientista político Pankaj Ghemawat, professor de estudos estratégicos da Universidade de Navarra, em Barcelona, Espanha, publicou um livro em que critica o excesso de otimismo com relação à globalização.
Segundo ele, valores que tendem a diluir barreiras culturais vão contra a nossa natureza tribal. O autor mostra que a maior parte de nossas relações permanece local: o correio internacional é apenas 1% do total, telefonemas internacionais são menos de 2% e tráfego internacional na internet representa entre 17% e 18% das informações da rede.
O fundamentalismo é uma reação à essa tendência homogeneizante. Quando valores externos ameaçam aqueles em que você e seus antepassados baseiam suas vidas, existem duas opções: ou você os absorve a um maior ou menor grau ou você se rebela e se fecha ainda mais, reagindo agressivamente à qualquer tipo de “intrusão”.
Além de nossas famílias, nossa rede de interação social e cultural é baseada na aliança a certas tribos: Palmeiras ou Corinthians, brasileiro ou argentino, branco ou negro, católico ou muçulmano etc. A troca de ideias enriquece, mas a sua homogeneização empobrece.
Muitas das extrapolações tecnológicas que Kaku e outros descrevem estão chegando. Questões relativas a cultura e mercado são mais sutis. Não há dúvida de que barreiras comerciais continuarão a cair e que a globalização fará com que bens sejam acessíveis a um número cada vez maior de pessoas.
O desafio será reinventarmos nossa natureza tribal. Será que podemos (ou queremos) viver sem bandeiras? Se não aprendermos a respeitar as nossas diferenças, criando uma atmosfera de troca de informações e culturas, o sonho de um mundo melhor pode se transformar num pesadelo nada utópico.

Medo ou preguiça?

Uma pergunta feita por um personagem do filme Waking Life fica me rondando desde que vi o filme pela primeira vez. Ao falar sobre a potencialidade do ser humano, um homem diz que gênios como Nietzche e Platão estão mais longe de nós, normais, que nós estamos dos macacos. Então ele pergunta qual a característica humana mais universal: o medo ou a preguiça?

A vida do ser humano médio me parece extremamente entediante. Sujeito é criado para estudar, trabalhar, criar família, ganhar dinheiro para pagar cada vez mais contas. Há até um certo fetiche com a tal da conta. “Ah, eu preciso pagar as minhas contas!” Quando escuto isso não posso deixar de pensar em como a maior parte dessas contas são desnecessárias. Roupas, carros, móveis, viagens. Tudo é bastante sem graça diante de uma experiência de expansão da consciência. Não entendendo mal, qualquer expansão da consciência é uma viagem incomparável. Conhecer uma bela pessoa, olhar nos seus olhos, admirar suas peculiaridades, beijar um beijo molhado daqueles que não dá vontade de acabar. Mas essa experiência é limitada, pois uma vez encontrada uma pessoa casa-se com ela e nunca mais se poderá desfrutar dessa viagem ao mundo de outros, ou ao mundo que fica entre um e outro, pleno. Conhecer uma pessoa é uma viagem única e que na minha opinião não fica devendo nadíssima a uma viagem à Europa, aos Andes, à Índia (apesar de eu não ter ido a esses lugares para comparar. Mas comparando com as viagens que já fiz, insisto que não se compara). Diz que o casamento é conhecer todo dia a mesma pessoa, fazendo essa viagem sempre com a mesma, conhecendo-a sempre de novo. Mas mesmo que isso fosse assim, se o encanto fosse o mesmo ou comparável, ainda fica a perene questão de porque essa viagem excluir as outras possíveis.

A parte da preguiça no que diz respeito à pergunta do primeiro parágrafo me assusta porque percebo a prescrição para sermos normais, normóticos, que só fazem trabalhar, contar dinheiro, buscar realizar seus sonhos profissionais-financeiros, onde a auto-exploração não entra, a não ser como epifenômeno: você precisa se conhecer para “subir” profissionalmente, aprender para melhorar de cargo, se relacionar melhor porque é o que as empresas esperam, etc.

O que me espanta é que há muito para se fazer em proveito da vida. Nossa cultura, com tudo de destrutivo que a caracteriza, fornece boas alternativas para quem quiser utilizar bem o tempo que tem sobre a Terra. Mas não aprendemos nem a conferir o que há, nem experimentar. É tudo para o trabalho, para as contas, as viagens, a igreja, a família. Por isso continuamos mais perto dos macacos. No início do Grande Sertão: Veredas, o protagonista Riobaldo pergunta: “Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?” Eis a pergunta que devemos nos fazer a cada dia, queremos devassar e conferir o que existe? Me parece que é isso ou ficar na mesmice de sempre, contando dinheiro e vivenciando da nossa mente, como disse William James da maioria dos seres humanos, o mesmo que vivenciaria de seu corpo uma pessoa que só movesse o dedinho do pé.

Nosso corpo permanece um desconhecido, nem poderia dizer ilustre, pois da forma como é tratado pela maioria… E se não conhecemos nosso corpo, não há nenhuma chance de conhecermos a nós mesmos, pois a viagem pela consciência começa pelo corpo. E alternativas não faltam. Pode-se ficar uma vida desenvolvendo-se pacientemente em Yoga, kung-fu, tai-chi, corrida. Tudo depende da atitude diante dessa coisas. Mesmo a musculação, terra privilegiada do narcisismo, pode constituir acesso ao corpo. Os sonhos, quem os conhece? Quem dedica dois minutos do seu dia para conhecê-los? Para estudar o que já descobriram sobre eles? A própria consciência, os pensamentos, quem conhece seus caminhos? Sim, estamos mais perto dos macacos.

Há muitas Veredas e continuo com a dúvida do que é que mais nos impede de conferi-las, a preguiça ou o medo?

Ubuntu: cada vez mais… surpreendente!

No “longínquo” ano de 2004, nasce mais uma – entre várias outras – distribuições Linux: o Ubuntu. Na época, ele até teve uma recepção bem fria, mas devido às suas limitações: parte da não aceitação foi por causa da enorme quantidade de distribuições que já existiam até então. Porém, dada a sua proposta de oferecer um sistema simples, fácil de usar e “feito para seres humanos”, além de trazer boas inovações, a renomada distribuição patrocinada pela Canonical conquistou o seu espaço, tornando-se atualmente a mais popular entre os sistemas livres para os desktops…

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Agroglifos: mensagens ou fraude?

Que mensagem é essa dos círculos cortados em plantações, que precisa ser escrita sempre à noite e sem nenhuma testemunha?

Investigando agora outro sinal de que “eles” nos visitam: os misteriosos agroglifos. Desde o final dos anos 70, eles se espalham pelo mundo.

Antes, um esclarecimento: agroglifos são padrões simétricos do tamanho de campos de futebol que são cortados em plantações de trigo (em inglês, são “crop circles”, algo como “círculos em plantações”.)

Talvez o leitor se lembre do filme “Sinais”, de 2002, dirigido por M. Night Shyamalan e estrelando Mel Gibson como um reverendo cujos campos recebem essas mensagens.

Nesse filme, os padrões são um código para direcionar naves de ETs em sua invasão. O longa faturou cerca de US$ 410 milhões. Se você buscar por “agroglifos” na internet, encontrará dezenas de belíssimas imagens, retratos dos vários tipos de padrões cortados em plantações trigo, principalmente no Reino Unido (pobres fazendeiros!)

Alguns parecem mandalas, outros têm aparência mais abstrata. Recentemente, surgiu um perto de um radiotelescópio, com o rosto de um ET e um disco perto -um CD gigante com uma mensagem para nós (veja o link:http://www.youtube.com/watch?v=-4CYcp5wObs).

Vários documentários se dedicam ao assunto. Um bem sensacionalista, dirigido por William Gazecki (“Agroglifos: Busca Pela Verdade”), entrevistou “autoridades” que confessaram não entender o mistério, atribuindo-o à ETs ou fenômenos paranormais. Outro, mais sóbrio, apresentado pela NatGeo na série “É Real?”, mostrou como é relativamente fácil fazer os agroglifos.

A revista “Scientific American” publicou, em 2002, as confissões de um criador de agroglifos, o autor Matt Ridley. Em suas palavras: “Trate autoridades com ceticismo e verifique se não têm algum interesse na história “”muitos cerealogistas ganharam dinheiro escrevendo livros e guiando turistas boquiabertos por fazendas com agroglifos. Quanto à identidade dos criadores, incluindo os recentes com formas fractais, acredito mais provável que sejam estudantes do que ETs.”

Formas geométricas fractais estavam em voga nos anos 90, quando esses padrões começaram a aparecer nos campos.

Teria sido genial se esses agroglifos tivessem aparecido bem antes de Benoit Mandelbrot ter inventado os fractais. Mas esse tipo de prova de inteligência ET nunca ocorre.

Aliás, agroglifos só começaram a aparecer em 1978, quando dois ingleses, Doug Bower e Dave Chorley, confessaram ter criado esses padrões para assustar as pessoas.

Mesmo assim, há quem continue acreditando na origem misteriosa dos agroglifos. Se seu objetivo é trazer uma mensagem, por que não o fazem em frente a testemunhas? A coisa ocorre sempre à noite, em segredo. E que mensagem é essa que precisa de grandes áreas em plantações, escrita continuamente por mais de 30 anos? Ou ela é muito complexa ou nós somos primitivos demais para entendê-la.

Talvez alguém esteja se divertindo às custas da necessidade de se acreditar no que não existe. Pergunto: o que existe, com sua beleza e grandiosidade, não é suficiente?

Os instrumentos de descoberta


Os supercomputadores expandem nossa visão, permitindo-nos ‘ver’ muito além dos nossos sentidos

NÓS HUMANOS evoluímos na proximidade de uma estrela cuja temperatura na superfície é de cerca de 5.600ºC.Nosso metabolismo e fisiologia são consequência do ambiente em que vivemos.
Por isso, desenvolvemos órgãos que nos permitem sobreviver nas condições ditadas pela natureza à nossa volta. Nossos olhos enxergam a parte do espectro eletromagnético visível (as “cores” do arco-íris).
Devido ao nosso tamanho, não vemos coisas menores do que meio milímetro e, como nossos antepassados não precisavam enxergar muito longe para caçar ou se defender, não captamos detalhes de objetos muito distantes.

Nossa audição também reflete nossas dimensões e meio ambiente. Somos criaturas muito bem adaptadas ao mundo em que vivemos e completamente cegas a uma gama de fenômenos que escapam à nossa percepção sensorial.

Daí a enorme importância dos Instrumentos na ciência. Eles expandem nossa visão, permitindo-nos “ver” muito além do alcance de nossos próprios sentidos.
Poderíamos contar a história da ciência através da história dos instrumentos científicos.

Recentemente, li uma matéria de John Markoff, no jornal “The New York Times”, sobre como os supercomputadores estão redefinindo a ciência. “A tecnologia tradicional da pesquisa científica continua presente: microscópios eletrônicos, telescópios. Massão inseparáveis dos computadores.Apenas com computadores os cientistas conseguem encontrar padrões de ordem nas informações coletadas por instrumentos usados nos experimentos.”

O que sabemos do mundo é determinado pelo que podemos ver dele.

A medida em que a ciência avança, o que chamamos de “mundo” muda dramaticamente. Do Cosmo geocêntrico, esférico e estático da época de Cabral, a um Universo expandindo a 13,7 bilhões de anos é um pulo imenso. Do mundo grego, composto por cinco elementos básicos (terra, água, ar, fogo e éter), aos mais de 100 elementos da tabela periódica compostos de quarks e elétrons.

Sem computadores, os dados que coletamos fariam pouco sentido.

Mas essas máquinas vão além, permitindo- nos resolver problemas considerados insolúveis no passado.

Nos séculos 18 e 19, ficou claro que muitas das equações da física eram intratáveis. Vários matemáticos, na maior parte franceses e com nomes começando em “L” (Lagrange, Laplace, Laguerre, Liouville…), desenvolveram técnicas para lidar com equações que descrevemos fenômenos naturais.

Infelizmente, uma classe importante de problemas permaneceu sem solução, os chamados sistemas não lineares, em que as várias partes interagem entre si de modo não trivial. Uma enorme quantidade de fenômenos naturais é não linear.

É aqui que os computadores realmente são imprescindíveis. Em princípio, qualquer equação não linear é solúvel num computador (dentro de uma certa precisão).

Dentre várias questões em aberto, cito três: o clima e sua previsão de longo prazo, a emergência da consciência humana na interação entre neurônios e as equações bioquímicas ligadas à origem da vida.

Sem nossos instrumentos de descoberta, nossa visão de mundo estagnaria.

É bom lembrar disso ao discutir o fomento à pesquisa.

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